A Placenta: um órgão vital com muitos significados

A placenta é um órgão extraordinário, formado durante a gravidez, que desempenha funções essenciais para o desenvolvimento saudável do bebé. É ela que fornece oxigénio e nutrientes ao feto, remove os resíduos do seu metabolismo, produz hormonas fundamentais para a manutenção da gravidez e atua como uma barreira protetora entre mãe e bebé.

Logo após o nascimento do bebé, a placenta é expulsa — um momento conhecido como dequitadura ou secundamento. Embora muitas vezes pouco falado, este é também um momento fisiológico importante do parto.

Um órgão envolto em significados

Ao longo da história e em muitas culturas, a placenta é mais do que apenas um órgão: é símbolo de vida, ligação e renovação. Por isso, existem vários rituais associados ao seu destino após o nascimento:

  •  Enterrar a placenta, muitas vezes junto de uma árvore recém-plantada, como símbolo de crescimento e continuidade.

  •  Consumir a placenta, prática conhecida como placentofagia, seja em batidos, cápsulas ou cozinhada (apesar de controversa).

  •  Imprimir a forma da placenta em papel (“placenta print”) como recordação artística.

  •  Usá-la em produtos cosméticos ou medicinais — uma prática mais comum em países orientais.

Em muitos hospitais portugueses, no entanto, a placenta é considerada resíduo biológico e é incinerada automaticamente, a menos que exista um pedido específico da família.

Posso levar a placenta para casa?

Em Portugal, não existe ainda uma lei específica sobre o destino da placenta. Contudo, há um parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) que reconhece o direito dos progenitores de decidirem sobre o seu destino, desde que estejam assegurados princípios fundamentais como:

  •  Autonomia e consentimento informado;

  •  Liberdade de consciência, religião e cultura;

  •  Respeito por práticas culturalmente significativas;

  •  Segurança e saúde pública.

Ou seja, é possível levar a placenta para casa, desde que não haja risco sanitário identificado (por exemplo, em casos de infeções transmissíveis). Nesses casos, por motivos de saúde pública, a placenta deve ser eliminada em contexto hospitalar.

O que diz a Organização Mundial da Saúde?

OMS defende que os serviços de saúde devem respeitar as práticas culturais das mulheres no contexto do parto, sempre que não representem risco para a sua saúde ou a do bebé. Isto inclui o direito à escolha sobre o destino da placenta.

“As instituições de saúde devem preservar o direito das mulheres parirem em instituições, de decidirem sobre a sua roupa e a do bebé, sobre a alimentação, o destino da placenta e outras práticas culturalmente significantes.”

— Organização Mundial da Saúde (2018)

E a placentofagia? O que diz a ciência?

Apesar do crescente interesse por consumir a placenta no pós-parto, a evidência científica atual não comprova benefícios consistentes desta prática para a saúde da mãe. Alguns estudos levantam preocupações sobre o risco de infeção, contaminação cruzada e presença de metais pesados, dependendo do modo de preparação.

Por isso, entidades como o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) não recomendam o consumo da placenta, até que haja mais dados científicos fiáveis que garantam a sua segurança e eficácia.

Em resumo:

 

  •  A placenta é um órgão vital durante a gravidez e com forte carga simbólica em muitas culturas.

  •  O destino da placenta pode ser decidido pelos progenitores, desde que estejam asseguradas condições de segurança.

  •  Em Portugal, o pedido para levar a placenta deve ser feito por escrito e pode ser avaliado caso a caso.

  •  Práticas como a placentofagia carecem de evidência científica robusta e podem não ser seguras.

  •  O respeito pelas escolhas das famílias deve ser parte integrante de cuidados de saúde humanizados.

 

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