1. Métodos farmacológicos de alívio da dor
A analgesia de parto é algo recente na história da obstetrícia. Passou por várias e profundas transformações, desde a sua introdução.
No início, a grávida tinha o seu bebé, permanecendo inconsciente e chegava a não se lembrar de o ter tido, até aos dias de hoje, em que a grávida sofre bloqueio/ analgesia epidural e consegue caminhar e parir em movimento.
O mesmo acontece nas cesarianas atualmente: a mãe pode ver o seu bebé nascer, tocar-lhe, fazer contacto pele a pele, amamentar.
Assim, há várias possibilidades de analgesia/ anestesia. Podem ser usados medicamentos por via oral, intramuscular, endovenosa ou inalatória e ainda num espaço da coluna (epidural).
Estes procedimentos podem, por vezes, alterar o decurso do trabalho de parto, uns porque restringem a mobilidade, outros porque interferem com as contrações uterinas, o que obriga ao uso da ocitocina sintética aumentando a probabilidade de partos instrumentados (ventosas e fórceps).
Bloqueio loco-regional
Todas as sensações de frio, calor, dor, pressão… são enviados ao cérebro através dos nervos. Estes, vindos de cada segmento do nosso corpo vão se juntar na medula.
A analgesia/ anestesia loco-regional é uma técnica médica invasiva, que induz a supressão da sensação de dor, em determinada parte do corpo. Executa-se através da inserção de uma agulha na região lombar da coluna materna, através da qual se injeta anestésico local na proximidade dos nervos que conduzem a sensação dolorosa.
Pode ser de 3 tipos: epidural, raquianestesia e combinada (raquianestesia-epidural), dependendo do local onde vai ser injetado o medicamento.
Antes de realizar a analgesia é importante que os conheça os riscos para que possa tomar a sua decisão de maneira consciente e deverá assinar o consentimento informado que lhe será fornecido pelo médico.
Vai-lhe ser pedido que adote a posição deitada de lado ou sentada, de acordo com a preferência do anestesista. A sua ajuda é muito importante para facilitar o trabalho do médico e diminuir o risco de falhas.
Contudo, encontrar o espaço ideal pode não acontecer à primeira; não se preocupe, procure adotar a postura solicitada para facilitar o trabalho do anestesista.
Depois de o cateter estar no sítio, é fixado com adesivo. A função do cateter é permitir o acesso contínuo ao espaço epidural para que novas doses de analgésicos sejam dadas sempre que necessário.
De acordo com a intensidade da dor podemos fazer mais ou menos doses. É importante perceber que quanto maior a dose, maior a possibilidade de acontecer um bloqueio motor que a impede de se mobilizar.
Portanto, algumas vezes, poderá ter que decidir se prefere sentir algum incómodo, mas ter a possibilidade de se mobilizar sempre ou não ter qualquer desconforto e ser obrigada a permanecer na cama.
A melhor altura para realizar a epidural é quando a grávida solicita, quer esteja com 1 ou 10 cm de dilatação.
Porém, numa fase mais adiantada do trabalho de parto quando estiver provavelmente mais agitada, a sua colaboração poderá não ser a ideal e o anestesista poderá optar por não fazer, por não considerar seguro.
Se o trabalho de parto evoluir para uma cesariana o mesmo cateter epidural poderá ser utilizado para “aprofundar” a anestesia e ser possível esta cirurgia.
A analgesia epidural está contraindicada nos casos de infeção localizada ou generalizada, quando existem alterações na coagulação do sangue ou a grávida apresenta um desvio importante da coluna tornando a técnica de difícil ou até impossível execução.
Apesar da epidural promover um alívio substancial do desconforto no parto, 1 em cada em 20 casos a analgesia pode não ser eficaz.
São várias causas: cateter deslocado, pressão das estruturas pélvicas maternas pela apresentação fetal, existência de zonas de “janelas” onde a analgesia não atinge. Todos estes são fatores para que não haja uma impregnação completa pelo analgésico.
Não há evidência científica que demonstre que a analgesia loco-regional aumente o número de partos por cesariana. O aumento da probabilidade de um parto instrumentado por via vaginal, ou seja, com recurso a ventosa ou fórceps, é ainda discutível.
Esta técnica não aumenta a duração da primeira fase do trabalho de parto (dilatação do colo do útero), mas poderá aumentar a duração da segunda (período expulsivo), principalmente se perder a sensação de puxo e a mobilidade.
Poderá surgir uma hipotensão transitória, por vezes associada a náuseas e vómitos e ainda diminuição da perfusão útero-placentar que é corrigida com administração de soro.
Pode acontecer também dificuldade no esvaziamento da bexiga uma vez que pode não ter a sensação de bexiga cheia. Em alguns serviços, está protocolado algaliação das grávidas que fazem analgesia epidural.
A ocorrência de náuseas, vómitos, prurido (comichão) e raramente dor de cabeça também podem ocorrer.
Muito raramente poderão ocorrer lesões neurológicas transitórias ou permanentes, hematoma epidural, meningite ou infeções do sistema nervoso central.
Poderá ainda ocorrer depressão respiratória e cardiovascular, com necessidade de outras intervenções clínicas mais invasivas.
Em relação ao bebé, não foi demonstrado alteração na vitalidade e nos reflexos ou aumento da necessidade de reanimação após o nascimento, nas mulheres que receberam este tipo de analgesia durante o parto.
Óxido nitroso
O óxido nitroso, protóxido de nitrogênio, ou protóxido de azoto, também conhecido como gás hilariante ou gás do riso (porque provoca uma sensação de bem-estar) é usado há mais de um século.
Apresenta propriedades anestésicas e é muito popular em países como Canadá, Suécia e Inglaterra, mas ainda pouco usado em Portugal.
É mais uma opção para as mulheres em trabalho de parto menos invasiva e com menos riscos que uma anestesia como a epidural.
O gás usado no trabalho de parto é uma mistura com o oxigénio (metade oxido nitroso e metade oxigénio) e é a própria mulher que controla quando e por quanto tempo necessita usar.
Após ser inalado, o gás alcança os pulmões, rapidamente entra na corrente sanguínea alcançando o sistema nervoso central.
O gás atua no córtex cerebral, região relacionada com sentimentos de medo, ansiedade e autocensura. Acredita-se que ele reduza as transmissões nervosas no córtex.
Alguns estudos mostram que o acido nitroso não parece reduzir a dor de uma maneira importante, mas ele é capaz de proporcionar um estado de espírito em que as pacientes se concentram menos na dor que estão a sentir.
Vantagens:
- É uma opção segura à epidural;
- Oferece à mulher a possibilidade de estar sempre no controle do seu parto, inclusive no controle da dor pois é ela quem determina quando e quanto inalar;
- Não interfere com a cascata hormonal fisiológica que acontecem ao longo do trabalho de parto (dança das hormonas);
- A sua administração é simples e segura e não requer supervisão médica;
- Não é tóxico;
- Ajuda a reduzir a ansiedade e o medo;
- Rápida eliminação do gás da corrente sanguínea;
- Não apresenta complicações pós-parto;
- Não provoca doença hepática e renal.
Desvantagens:
- Náuseas;
- Tonturas;
- Vómitos;
- Sonolência;
- Tem menor eficácia que a epidural pelo que algumas mulheres acabam por solicitar a epidural.
Anestesia geral
Técnica que permite o alívio da dor, de forma rápida, mas também induz a perda de consciência.
É utilizada em situações de emergência/urgência obstétrica, embora cada vez menos.
Também pode ser realizada a pedido da grávida, se esta se sentir muito ansiosa, receosa ou quando a anestesia loco-regional está contraindicada.
Para ser executada é necessário que haja um acesso venoso permeável e, a administração dos fármacos é feita através de injeção endovenosa e pelo tubo oro-traqueal.
É uma técnica segura. Há medicamentos usados neste tipo de anestesia que passam para o bebé, através da barreira da placenta, mas o seu efeito desaparece rapidamente.
Quando é realizada anestesia geral, habitualmente não é permitida a presença de acompanhante no bloco operatório.