1. Intervenções durante o trabalho de parto
Qualquer intervenção feita durante e após o seu trabalho de parto deve ser baseado nas evidências científicas e não devem ser usadas por rotina. O uso indiscriminado de certos procedimentos do mais simples ao mais complexo, poderá desencadear uma cascata de intervenções em que uma leva a outra e outra… elevando progressivamente o nível de complexidade dos procedimentos e o risco obstétrico e perinatal.
As pesquisas mostram que a adoção de procedimentos desnecessários ou inadequadamente utilizados, como amniotomia precoce, infusão endovenosa de ocitocina, imobilidade e analgesia, estão enraizadas em convicções empíricas dos profissionais, sem que existam claras evidências científicas dos benefícios de seu emprego e podem alterar o curso fisiológico do parto.
A sua adoção indiscriminada na assistência ao parto pode levar a complicações, que por vezes exigem a realização de cesariana para preservar o bem-estar materno-fetal.
Tricotomia
A tricotomia é o corte dos pelos corporais. Não há benefício neste procedimento (por rotina) e pode até aumentar o risco de infeção, pois torna a pele mais frágil e menos eficaz no seu papel de barreira aos microrganismos.
Se preferir, poderá realizar a depilação prévia, em casa, se a fizer sentir bem e a deixar mais confortável.
Enema de limpeza
É a aplicação de uma solução no intestino, através do ânus, para que o seu conteúdo seja eliminado em seguida. A sua realização não dá certeza de que não haverá saída de fezes durante o parto, podendo mesmo aumentar a probabilidade de isto acontecer pois aumenta a fluidez das mesmas.
Poderá efetuar este clister de limpeza em casa se isto a deixar mais confortável. Há cada vez menos instituições que têm esta prática por rotina.
Acesso venoso (com ou sem administração de soros)
O objetivo é ter um acesso venoso para administração de soro ou medicamentos, caso seja necessário. Alguns serviços iniciam soros a todas as grávidas, outros apenas deixam o cateter para o caso de ser necessário. Numa gravidez de baixo risco, este procedimento não é essencial, desde que compreenda que na eventualidade de uma emergência (rara neste contexto), poderá demorar um pouco mais a administração da medicação por ter que se cateterizar a veia nesse momento.
Algaliação
A sonda de Foley (algália) é usada para manter a bexiga vazia, quando não conseguir urinar espontaneamente (às vezes pode acontecer depois da epidural). A bexiga cheia pode ser um obstáculo à descida do bebé. Nalguns serviços a sua colocação faz parte do protocolo da epidural. Numa situação destas, caso a queiram algaliar e não o deseje, poderá questionar outras opções (ida à casa de banho, colocação de aparadeira ou cateterismo vesical intermitente). Nos partos por cesariana a algaliação é feita para controle do débito urinário que poderá estar comprometido por razões relacionadas com a anestesia, tensão arterial entre outras.
Aceleração do trabalho de parto
Enquanto ambos estiverem bem (mãe e bebé) e o trabalho de parto estiver a evoluir, não haverá necessidade de acelera-lo. Assim, poderá parir a seu tempo, sem pressa e sem pressões. Antigamente existia uma “fórmula” aplicada a todas mulheres que relacionava a velocidade da dilatação com as horas em que a mulher estava em trabalho de parto. Atualmente este conceito está em desuso, pois cada mulher evolui ao seu ritmo. A UNICEF lançou uma campanha para o trabalho de parto cujo slogan é “Quem Espera, Espera” alertando para a necessidade de aguardar a hora que o bebé escolhe para nascer. O tempo do trabalho de parto é importante para o amadurecimento final do feto, havendo a libertação de substâncias, como os corticosteroides, que agem, p. ex. nos pulmões do bebê, promovendo a sua maturação assim como de outros órgãos. A dilatação não é o único indicador de que o trabalho de parto está a evoluir. Deve-se estar atento também à posição e grau de progressão do bebé através do canal de parto. Não adianta estar com a dilatação completa e a cabeça do bebé ainda estar alta, fora da bacia. É sabido que um ambiente de tranquilidade e segurança oferecido durante todo o processo do parto auxilia na progressão do mesmo. Assim, se grávida ficar sob stress vai ocorrer libertação de adrenalina que, pode retardar a progressão do trabalho de parto ao inibir a produção de ocitocina e diminuir as contrações uterinas. Salvaguardam-se situações como a rotura prolongada das membranas com risco de infeção, exaustão materna onde poderá estar indicado acelerar ou mesmo induzir com o uso de ocitocina ou prostaglandinas. É importante que as escolhas sejam feitas de maneira consciente e informada.
Rotura artificial de membranas (RAM)
Na gravidez, o feto fica envolvido em membranas dentro do útero, que contém um líquido produzido inicialmente pelo corpo da mãe e a partir do 4º mês, pelo bebé. Esse líquido, entre outras funções, tem efeito de proteção ao equalizar a pressão sobre o bebé, o que resulta em menor pressão na cabeça e no colo do útero. A RAM, também chamada de amniotomia é indicada por alguns com o objetivo acelerar o trabalho de parto ou quando se deseja analisar as características do líquido amniótico, uma vez que quando o líquido tem mecónio (líquido esverdeado), em cerca de 1/5 dos casos pode ser indicador de algum compromisso do bem-estar fetal. Ao rompermos a bolha de água, a barreira entre a vagina contaminada e a cavidade uterina estéril desaparece. Isso pode aumentar o risco de infeção e criar um limite de tempo para o parto. Existe ainda um risco de prolapso do cordão – esta situação constitui uma emergência obstétrica. Na RAM assim como qualquer outro procedimento, devem ter avaliados os riscos e benefícios da sua realização para tentarmos perceber se os últimos superam os primeiros. Quando não se rompe as membranas artificialmente elas, na grande maioria dos casos, acabam por romperem-se espontaneamente. Quando raramente isso não acontece, os bebés nascem dentro da bolsa d’água – chamado de parto empelicado (acontece 1 em 90.000 partos). A amniotomia, como qualquer outro procedimento, só deve ser realizada após o seu consentimento.
Antibioterapia
Existem certas situações em que o uso de antibiótico está protocolado nos diferentes serviços durante o trabalho de parto para prevenir ou tratar infeção, como por exemplo, na rotura prolongada da bolsa d’água, na presença da bactéria Estreptococos do Grupo B na vagina/reto da grávida. Os protocolos podem variar de hospital para hospital. Por outro lado, o uso de antibiótico pode alterar o ecossistema vaginal e, o bebé ao passar pela vagina poderá não entrar em contacto com toda a flora que habitualmente ali existe, levando a uma diminuição do estímulo da sua imunidade. Estudos mostram que o bebé ao entrar em contacto com a flora vaginal da mãe, será colonizado pela mesma o que vai estimulará a sua imunidade e melhor adaptação à vida extrauterina, quando comparados aos bebés que nascem de cesariana eletiva.
Análises
Normalmente são feitas, durante a gravidez um conjunto de análises em cada trimestre. Quando é admitida na maternidade para ter o seu bebé, pode ser necessário a colheita de sangue para a realização de alguma análise eventualmente em falta. Durante o trabalho de parto, nos casos de rotura prolongada da bolsa d’água, febre materna também pode rá ser necessário a realização de análises para rastreio de eventual infeção.